Uma história que atravessa música, apagamento histórico e memória familiar ganha forma em livro neste mês. A dramaturga e roteirista Carol Pitzer lança Deoclécio Damasceno de Freitas – Um maestro negro na cidade imperial, obra que revisita a trajetória do músico e educador que participou ativamente da vida cultural de Petrópolis nas primeiras décadas do século XX.
Publicado pela Rocio Produções, com apoio do edital do Rio ao RJ, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro, o livro terá dois lançamentos em junho: um no Centro de Cultura Raul de Leoni e outro no Espaço Cultural Comunitário Maestro Deoclécio de Freitas, no bairro Vila Rica.
Nascido em 1888, em Sebollas, distrito de Paraíba do Sul, Deoclécio pertenceu à primeira geração de pessoas negras nascidas livres após o fim formal da escravidão no Brasil. Ainda criança, chegou a Petrópolis impulsionado pelo talento musical e construiu uma trajetória que o colocaria entre os principais nomes da cena cultural local.
Autodidata, atuou como professor, diretor e regente da Escola de Música Santa Cecília, fundou o Corpo Orfeônico da instituição em 1937, regeu o coro da Liga Católica JMJ, conduziu a Banda Primeiro de Setembro, em Cascatinha, e esteve à frente da Jazz Rio Petrópolis, grupo vencedor do concurso de melhor banda de jazz da cidade em 1934.
Quando morreu, em outubro de 1942, milhares de pessoas acompanharam seu cortejo fúnebre e a Escola Santa Cecília interrompeu as atividades durante um mês em sinal de luto. Com o passar do tempo, porém, sua presença foi desaparecendo dos registros mais conhecidos da memória oficial petropolitana.
A retomada dessa história começou dentro da própria família. Em 2006, Lilian Regina Marcílio Nogueira, neta do maestro, organizou a exposição Deoclécio em Pauta, reunindo documentos, fotografias e partituras. Anos depois, o encontro entre Lilian e Carol Pitzer impulsionou uma nova etapa da pesquisa, que deu origem ao documentário Canção para Deoclécio, vencedor do Prêmio Maestro Guerra-Peixe 2024 na categoria audiovisual.
Foi durante o processo de produção do filme que surgiu o livro.
Ao reunir jornais, registros históricos e partituras manuscritas, Pitzer percebeu que os documentos revelavam a dimensão pública do maestro, mas deixavam lacunas sobre sua subjetividade e experiência cotidiana. Em vez de preencher essas ausências apenas com reconstrução factual, a autora escolheu aproximar documento e imaginação literária.
A publicação articula pesquisa histórica com cenas, cartas e fragmentos ficcionais inspirados nos materiais encontrados, criando uma narrativa que busca devolver presença e complexidade a uma figura pouco lembrada da história cultural brasileira.
A música ocupa um espaço central nesse processo de reconstrução. Metade do livro reúne partituras localizadas durante as pesquisas para o documentário e transcritas especialmente para esta edição. Entre elas estão obras como Berceuse, Mutt e Jeff, Elvira, Bijou, Ila e As Segadeiras e as Respigadeiras. Uma das composições aparece reproduzida em fac-símile, preservando o formato original de circulação.
Além da publicação impressa, as partituras serão disponibilizadas gratuitamente no site da Rocio Produções para leitura, pesquisa e execução musical.
Filha de historiadores, Carol Pitzer desenvolve trabalhos que transitam entre documento, ficção e memória. Com formação em cinema e especialização em artes cênicas e dramaturgia, já publicou cinco peças e estreou recentemente no longa documental com Canção para Deoclécio.