O aplicativo da câmera do celular é aberto. Do outro lado da tela, Iza Castro ajeita os livros sobre a mesa, ajusta a luz para não estourar a imagem e respira fundo antes de apertar “gravar”. O vídeo que ela produz não vai ultrapassar um minuto de duração, mas sua preparação já consome horas. Ler, selecionar trechos, pensar no que destacar, montar um roteiro. A cena pode parecer incomum, mas é parte da rotina de centenas de influenciadores literários no Brasil. O feed é a nova vitrine do mercado e não se trata mais de apenas ler. É preciso gravar, editar, responder comentários, negociar parcerias, acompanhar lançamentos, lidar com estatísticas do seu perfil nas redes sociais.
Parte dos criadores começou de forma despretensiosa, movida pelo desejo de conversar sobre livros. Muitos relatam que, antes de abrir um perfil, já gravavam vídeos e guardavam em seus celulares, sem intenção de publicar. “Eu lia muito, só que não tinha com quem conversar sobre. Quando vi uma menina compartilhando livros, pensei em criar um perfil, nem que tivesse só 10 seguidores, mas pelo menos um espaço seguro onde eu pudesse falar sobre o que gosto”, afirma a influenciadora Iza Castro.
Com o crescimento dos perfis, surgiu também a necessidade de organização e profissionalização. Os criadores passaram a ver o trabalho com livros como uma carreira que exige planejamento e estratégia. Um dos principais instrumentos desse processo é o mídia kit, documento usado para apresentar dados de engajamento e público a editoras e autores. Para perfis no Instagram e no TikTok, ele inclui estatísticas como taxa de engajamento, alcance médio, faixa etária dos seguidores e tipos de entrega, como reels, stories e vídeos curtos, atualizados periodicamente conforme o desempenho.
Para Iza Castro, que soma cerca de 2,4 mil seguidores, o Mídia Kit é uma ferramenta muito usada por ela para mostrar seu trabalho a autores e precificar sua produção, apesar de enxergar o perfil como hobby. “Esse retorno financeiro me ajuda a pagar uma designer, por exemplo, e melhorar a qualidade do perfil. Também é possível promover alguns vídeos nas próprias plataformas com o dinheiro recebido”, conta Iza.
Além dos conteúdos propostos pelas parcerias pagas, a influenciadora participa de permutas com autoras, geralmente recebendo exemplares e brindes relacionados à história que está divulgando. Para a criadora, esse formato faz sentido com o seu trabalho, já que não se enxerga como uma produtora de conteúdo tão grande. “Nesses casos, sou eu que me inscrevo e não é a autora que me procura. A escritora abre uma espécie de “processo seletivo” para parcerias e não tem um valor em dinheiro envolvido”, afirma.
Para as editoras, o engajamento dos perfis tem peso cada vez maior, mas os investimentos ainda se concentram nos nomes com maior alcance. Thatiane Salgueiro é responsável pela Se Liga Editorial, selo de publicação de obras LGBTQIAP+, e enxerga que as editoras e autores independentes percebem claramente esse impacto.
“Quanto maior o alcance e o impacto de um influenciador, maior tende a ser o valor cobrado. Por isso, é comum vermos grandes produtores de conteúdo falando dos mesmos livros, já que as grandes editoras dispõem de orçamentos mais robustos para essa divulgação”, afirma.
Essa dinâmica, embora limite a diversidade de vozes no meio literário, também ajuda a entender como alguns criadores conseguiram transformar o hobby em carreira. É o caso de Tiago Valente, um dos nomes mais conhecidos do meio literário nas redes sociais. Tiago afirma que sua trajetória com a produção de conteúdo no TikTok começou ao tentar apostar em outros tipos de publicações. “Eu fazia vídeos de comédia e dança, mas não tinha nada menos eu. Em 2020, decidi só falar de literatura. Fiz um vídeo resumindo Dom Casmurro em 30 segundos e mudou minha vida”, relembra o influenciador, que tinha 22 anos na época.
Com o tempo, o que era apenas uma forma de lazer passou a se consolidar como projeto de vida. Tiago conta que, hoje, tem um propósito claro: desconstruir a ideia de que ler é um ato reservado a pessoas “intelectuais”. “A leitura ainda é muito associada à inteligência, e isso afasta as pessoas. Meu objetivo sempre foi mostrar que ler não é um dom, é um hábito que se constrói”.
Formado em Letras, Tiago aposta na leveza e no humor como caminho para aproximar os leitores da literatura. Seus vídeos misturam clássicos e best-sellers, abordando cada obra com a mesma naturalidade.
“Eu comecei a ler mais porque via o Tiago falando com simplicidade. Parecia que a leitura era pra mim também”, conta Ana Luísa, de 22 anos, estudante de design do Rio de Janeiro. A leitora acompanha o influenciador desde 2021.
Essa conexão emocional entre quem consome e produz o conteúdo é o que fortalece o trabalho de muitos criadores literários. O conteúdo do perfil da influenciadora Iza Castro é baseado, principalmente, pelos romances adultos, com teor erótico. O público de Iza, em grande parte mulheres, não busca apenas recomendações. Elas encontram nos vídeos dela uma espécie de espelho.
“Muitas mulheres começaram a me mandar mensagens dizendo que só se sentiram motivadas a ler novamente por conta dos meus vídeos e dos temas que estão presentes nos livros que eu leio”, conta.
Para a autora Karoline Mandu, que produz conteúdo sobre suas obras, a resposta imediata das redes cria uma sensação de comunidade que, muitas vezes, não acontece em outros espaços literários, como bibliotecas e feiras de livros. “A gente sente que não está só indicando um livro. Está compartilhando algo que mexeu com a gente, que fez pensar. É sobre troca”, diz.
A relação vai além da simples indicação de títulos. Conforme relata Iza, suas seguidoras aprendem muito sobre sexualidade e o próprio corpo com os livros que ela recomenda. Em um país onde 61% dos leitores são mulheres, segundo último levantamento da Câmara Brasileira do Livro, a identificação com uma mulher que cria conteúdos online reforça o pertencimento e desperta a vontade de leitura no público feminino, que, muitas vezes, bibliotecas e livrarias nem sempre garantem.
Os criadores reconhecem que as redes mudaram a forma como o público se relaciona com o mercado editorial, associando o conteúdo literário à representatividade e à possibilidade de falar sobre temas como gênero, sexualidade e identidade. Mas esse espaço de afetos também é atravessado por cobranças. Muitos criadores dizem sentir falta de tempo para ler por lazer, sem pensar no algoritmo ou em como será o desempenho do vídeo. A influenciadora Júlia Garcia, natural de Ribeirão Preto (SP), vive esse conflito. “Às vezes eu só não quero ler. Mas eu tenho que ler, porque se eu não leio, como vou falar de livro? A rede social é muito “essa coisa ansiosa”, de você ter que estar em todo lugar e fazendo tudo”.
O sentimento percebido por Júlia é compartilhado por outros influenciadores entrevistados nesta reportagem, já que tanto o Instagram quanto o TikTok funcionam com base em sistemas de recomendação que dependem da atividade constante dos criadores. Segundo o Portal Sebrae, o algoritmo do TikTok leva em conta fatores como interações, tempo de visualização e informações do vídeo.
Quando há interrupções nas postagens, o engajamento tende a cair e o conteúdo é mostrado para menos pessoas. O mesmo ocorre no Instagram, onde o alcance depende de “sinais” como curtidas, comentários, marcações e frequência de publicação. A ausência prolongada é interpretada como perda de relevância. Apesar de essa ser a “regra” que rege os algoritmos das plataformas, isso pode ser alterado a qualquer momento, conforme o interesse das empresas responsáveis pelos aplicativos. E o trabalho com conteúdos sobre livros nem sempre resiste às pressões do mercado.
Catarina Simioni, estudante de Florianópolis de 23 anos, lembra do tempo em que mantinha seu perfil literário ativo e recebia pilhas de livros de editoras. O problema é que muitos não a interessavam. “Diversos livros que recebi achei super chatos e escrevi as resenhas mais superficiais e frustradas da vida. Hoje apaguei todas elas e deixei só as que escrevi com gosto”, relata.
Outros influenciadores compartilham dessa sensação. Júlia Garcia, por exemplo, tenta preservar a espontaneidade nas suas recomendações. “Eu tento não forçar nada. Se um livro não me pega, prefiro não falar. Já fiz vídeo sobre uma leitura que não gostei e o pessoal reagiu mal, como se eu tivesse traído o clube”, diz, rindo.
O “clube” a que ela se refere é mais do que uma metáfora. A leitura, impulsionada pelas redes, tornou-se uma prática grupal. A atuação dos criadores vai além da divulgação. Ela passa também pela formação de uma comunidade. Leitores interagem nos comentários, trocam impressões e participam de clubes virtuais organizados pelos próprios influenciadores.