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Quando o feed vira estante: conteúdos literários nas redes sociais impactam hábitos de leitura no Brasil

Vídeos curtos mostram novas formas de ler em meio à rotina digital
Vídeos curtos mostram novas formas de ler em meio à rotina digital

“Eu vi o vídeo da menina na minha for you, chorando horrores com o livro. Aí pulei todos os outros que estavam na minha lista de leitura e botei ele em prioridade”, relembra a leitora mineira. O que para um espectador qualquer poderia ser apenas uma reação normal a um livro emocionante, tornou-se, para Vitória, um estímulo para a leitura. O livro deixou de ser objeto restrito a prateleiras e clubes presenciais para circular em redes sociais, transformando-se em imagem e narrativa breve. O feed virou estante. 

Entre 2018 e 2023, o faturamento das editoras com conteúdos digitais cresceu 158%, segundo pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, conduzida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). No mesmo período, consolidou-se a presença dos estandes “Favoritos do BookTok” em livrarias brasileiras, evidência de como a criação de conteúdo digital sobre literatura interfere também no espaço físico, e não só nas redes sociais. Nessas prateleiras, os temas mais frequentes são os romances. Para o influenciador literário paulistano Tiago Valente, de 27 anos, que começou a criar conteúdo sobre livros desde a chegada do TikTok, em 2017, essa novidade foi algo positivo. “Eu pude acompanhar a comunidade crescendo e o que me deixou muito feliz em ver essas sessões de livros recomendados no aplicativo sendo abertas foi ver algumas obras que não estavam em destaque até então”, afirma o influenciador.

Durante a pandemia, Karoline tinha certeza que queria escrever um livro de poemas, já que esse era o conteúdo que mais consumia. Seu livro fala sobre o processo de descoberta dos sentimentos por outras meninas, falando de experiências pessoais ou de histórias que já ouviu durante o processo de escrita da obra. “Quando eu fiz a revelação de capa no meu perfil do TikTok, meu vídeo bateu mais de 100 mil visualizações. Eu fui postando trechos e aí fui ganhando mais seguidores. Até hoje, eu posto coisas sobre o livro e tenho vendas em algo que foi lançado há três anos”, conta a autora. 

Inicialmente, o livro de Karoline foi lançado como e-book de forma independente. Em 2024, a versão física de (Não) Conta pra Ela foi lançada pelo selo editorial Se Liga, especializada em publicações LGBTQIAP+. No mesmo ano, a autora foi à sua primeira Bienal do Livro, em São Paulo, e teve a oportunidade de vender o seu livro no estande da editora. “Nós esgotamos um livro lésbico na Bienal, é quase inacreditável. Creio que muito disso aconteceu por causa da minha boa relação com meu público nas minhas redes sociais”.

Eventos literários, como a Bienal de São José, que aconteceu em Santa Catarina durante os dias 23 e 26 de outubro de 2025, são considerados essenciais para os autores, principalmente os independentes. Muitos deles têm apenas essa oportunidade para vender seus exemplares, conforme entrevistas realizadas com escritoras durante o evento.

A experiência de Karoline se confirma com dados da pesquisa Retratos da Leitura 2024, idealizada pelo Instituto Pró-Livro. Nela, 24% dos entrevistados dizem que começaram a se interessar por literatura após a recomendação de influenciadores. Além disso, no último levantamento Panorama do Consumo de Livros, realizado pela Nielsen BookData, 77% das pessoas entrevistadas pretendiam comprar livros em 2025.

Apesar do interesse do público leitor em consumir mais livros, o Retratos da Leitura no Brasil de 2024 revelou que, pela primeira vez, os não-leitores (53%) superaram os leitores (47%). A pesquisa também mostra que a média de livros lidos por ano caiu para 3,96, número abaixo dos 4,95 registrados em 2019. Segundo a pesquisa, um cenário se confirma desde 2007: quanto maior a escolaridade e a renda, maior é o hábito de consumir livros. 

Para Letícia Gantzias Abreu, professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), associar a leitura à obrigação escolar pode agravar o problema. “Incentivar um aluno a ler obras como Jogos Vorazes ou Percy Jackson é extremamente válido por serem excelentes portas de entrada para os clássicos da literatura. O problema é que muitas escolas ainda resistem em incluir essas obras em seus programas de leitura, o que contribui para que os estudantes enxerguem os livros apenas como “conteúdo a ser estudado”, e não como uma experiência prazerosa”, analisa.

A rotina e o cansaço também aparecem entre os principais motivos para a queda da leitura. Entre os leitores, 75% disseram que gostariam de ter lido mais e apontaram a falta de tempo e o cansaço como as principais barreiras. Já entre os não-leitores, 32% afirmam que “não gostam de ler” e 33% culpam a falta de tempo. A leitora Letícia Castelli admite que a rotina pesa na hora de se dedicar ao hobby. “Hoje eu leio menos do que gostaria, muito por causa do trabalho e da faculdade. Chego cansada e, às vezes, acabo preferindo ver algo mais rápido no celular antes de dormir”, afirma.

Isso aponta justamente para um dos fenômenos centrais do Panorama, que é a ascensão das redes sociais como espaço de mediação literária. De acordo com o levantamento, 78% dos brasileiros preferem usar a internet em seu tempo livre e, entre os leitores, o índice chega a 87%. Ao mesmo tempo, 49% afirmam usar redes como Instagram, Facebook ou TikTok com frequência, superando os 20% que dizem ler livros no tempo livre.

A pesquisa evidencia que plataformas digitais vêm ocupando o papel de principal via de contato com a literatura, especialmente para pessoas entre 14 e 29 anos. Em meio a vídeos curtos, resenhas rápidas e listas de recomendações, a leitura se adapta à lógica das redes. No TikTok, por exemplo, o BookTok se consolidou como uma comunidade ativa, com hashtags que somam mais de 67 milhões de publicações. Para o pesquisador Bruno Sérvulo, esse fenômeno representa uma nova forma de mediação literária. “As redes sociais trouxeram a possibilidade de divulgação e distribuição de livros de maneira mais acelerada e acessível. Inclusive, já estão surgindo tipologias para influenciadores como booktokers e bookstagrammers. Formou-se um nicho de influência literária”, explica.

A professora Ione Araújo dos Santos, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), vê nas comunidades literárias digitais uma ponte entre o usuário e a experiência de leitura. “Essas comunidades literárias têm desempenhado um papel importante na formação leitora, principalmente dos jovens, porque aproximam a leitura da vida cotidiana em um espaço onde eles já estão inseridos, como o TikTok e o YouTube. Isso acaba retirando aquela obrigatoriedade imposta pela escola, deixando o ambiente mais propício às trocas e aos gostos”, afirma.

Nesse contexto, os influenciadores literários assumem um papel central. São eles que mediam o contato entre o público e os livros, transformando resenhas e recomendações em vídeos curtos que podem alcançar milhares de pessoas. Por trás desse movimento, há um trabalho constante de criação, gravação e divulgação.

As redes sociais transformaram a leitura em uma prática mais “visível” e deram a ela um novo sentido de comunidade. Isso porque, antes de se tornar uma experiência silenciosa e individual, ler era um ato partilhado. Quando a alfabetização ainda era privilégio de poucos, as histórias circulavam pela voz de quem sabia ler, mediando o acesso dos outros à palavra escrita. Segundo o historiador João Ngola Trindade, em seu artigo Tradição, História e Literatura, “a oralidade está presente no processo de educação e ensino em todas as sociedades, sendo cada vez mais usada atualmente com as tecnologias de comunicação que associam a imagem e a voz”.