No trem lotado, uma jovem segura um livro de quase oitocentas páginas. As lágrimas escorrem discretas, mas não o suficiente para passar despercebidas. O título é Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara, romance conhecido por provocar emoções intensas, principalmente, a tristeza. A cena não ficou restrita aos passageiros do vagão. Foi registrada e compartilhada pela leitora na rede social TikTok. Em poucas horas, alcançou milhares de pessoas, gerando comentários, curtidas, compartilhamentos e, sobretudo, novas leituras. Vitória Caetano, programadora de 26 anos, estava entre esse público.
“Eu vi o vídeo da menina na minha for you, chorando horrores com o livro. Aí pulei todos os outros que estavam na minha lista de leitura e botei ele em prioridade”, relembra a leitora mineira. O que para um espectador qualquer poderia ser apenas uma reação normal a um livro emocionante, tornou-se, para Vitória, um estímulo para a leitura. O livro deixou de ser objeto restrito a prateleiras e clubes presenciais para circular em redes sociais, transformando-se em imagem e narrativa breve. O feed virou estante.
Entre 2018 e 2023, o faturamento das editoras com conteúdos digitais cresceu 158%, segundo pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, conduzida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). No mesmo período, consolidou-se a presença dos estandes “Favoritos do BookTok” em livrarias brasileiras, evidência de como a criação de conteúdo digital sobre literatura interfere também no espaço físico, e não só nas redes sociais. Nessas prateleiras, os temas mais frequentes são os romances. Para o influenciador literário paulistano Tiago Valente, de 27 anos, que começou a criar conteúdo sobre livros desde a chegada do TikTok, em 2017, essa novidade foi algo positivo. “Eu pude acompanhar a comunidade crescendo e o que me deixou muito feliz em ver essas sessões de livros recomendados no aplicativo sendo abertas foi ver algumas obras que não estavam em destaque até então”, afirma o influenciador.
Ao refletir sobre isso, Tiago se refere a histórias de autores independentes que conseguiram ser publicados pelas grandes editoras do país e, principalmente, a obras com temáticas LGBTQIAP+. Nesse segmento, as redes sociais ajudaram muitos escritores a chegarem a seus públicos, como foi o caso de Karoline Mandu, autora do livro (Não) Conta pra Ela, lançado em 2023.
Durante a pandemia, Karoline tinha certeza que queria escrever um livro de poemas, já que esse era o conteúdo que mais consumia. Seu livro fala sobre o processo de descoberta dos sentimentos por outras meninas, falando de experiências pessoais ou de histórias que já ouviu durante o processo de escrita da obra. “Quando eu fiz a revelação de capa no meu perfil do TikTok, meu vídeo bateu mais de 100 mil visualizações. Eu fui postando trechos e aí fui ganhando mais seguidores. Até hoje, eu posto coisas sobre o livro e tenho vendas em algo que foi lançado há três anos”, conta a autora.
Inicialmente, o livro de Karoline foi lançado como e-book de forma independente. Em 2024, a versão física de (Não) Conta pra Ela foi lançada pelo selo editorial Se Liga, especializada em publicações LGBTQIAP+. No mesmo ano, a autora foi à sua primeira Bienal do Livro, em São Paulo, e teve a oportunidade de vender o seu livro no estande da editora. “Nós esgotamos um livro lésbico na Bienal, é quase inacreditável. Creio que muito disso aconteceu por causa da minha boa relação com meu público nas minhas redes sociais”.
Eventos literários, como a Bienal de São José, que aconteceu em Santa Catarina durante os dias 23 e 26 de outubro de 2025, são considerados essenciais para os autores, principalmente os independentes. Muitos deles têm apenas essa oportunidade para vender seus exemplares, conforme entrevistas realizadas com escritoras durante o evento.
A experiência de Karoline se confirma com dados da pesquisa Retratos da Leitura 2024, idealizada pelo Instituto Pró-Livro. Nela, 24% dos entrevistados dizem que começaram a se interessar por literatura após a recomendação de influenciadores. Além disso, no último levantamento Panorama do Consumo de Livros, realizado pela Nielsen BookData, 77% das pessoas entrevistadas pretendiam comprar livros em 2025.
Apesar do interesse do público leitor em consumir mais livros, o Retratos da Leitura no Brasil de 2024 revelou que, pela primeira vez, os não-leitores (53%) superaram os leitores (47%). A pesquisa também mostra que a média de livros lidos por ano caiu para 3,96, número abaixo dos 4,95 registrados em 2019. Segundo a pesquisa, um cenário se confirma desde 2007: quanto maior a escolaridade e a renda, maior é o hábito de consumir livros.
Para Letícia Gantzias Abreu, professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), associar a leitura à obrigação escolar pode agravar o problema. “Incentivar um aluno a ler obras como Jogos Vorazes ou Percy Jackson é extremamente válido por serem excelentes portas de entrada para os clássicos da literatura. O problema é que muitas escolas ainda resistem em incluir essas obras em seus programas de leitura, o que contribui para que os estudantes enxerguem os livros apenas como “conteúdo a ser estudado”, e não como uma experiência prazerosa”, analisa.
A rotina e o cansaço também aparecem entre os principais motivos para a queda da leitura. Entre os leitores, 75% disseram que gostariam de ter lido mais e apontaram a falta de tempo e o cansaço como as principais barreiras. Já entre os não-leitores, 32% afirmam que “não gostam de ler” e 33% culpam a falta de tempo. A leitora Letícia Castelli admite que a rotina pesa na hora de se dedicar ao hobby. “Hoje eu leio menos do que gostaria, muito por causa do trabalho e da faculdade. Chego cansada e, às vezes, acabo preferindo ver algo mais rápido no celular antes de dormir”, afirma.
Isso aponta justamente para um dos fenômenos centrais do Panorama, que é a ascensão das redes sociais como espaço de mediação literária. De acordo com o levantamento, 78% dos brasileiros preferem usar a internet em seu tempo livre e, entre os leitores, o índice chega a 87%. Ao mesmo tempo, 49% afirmam usar redes como Instagram, Facebook ou TikTok com frequência, superando os 20% que dizem ler livros no tempo livre.
A pesquisa evidencia que plataformas digitais vêm ocupando o papel de principal via de contato com a literatura, especialmente para pessoas entre 14 e 29 anos. Em meio a vídeos curtos, resenhas rápidas e listas de recomendações, a leitura se adapta à lógica das redes. No TikTok, por exemplo, o BookTok se consolidou como uma comunidade ativa, com hashtags que somam mais de 67 milhões de publicações. Para o pesquisador Bruno Sérvulo, esse fenômeno representa uma nova forma de mediação literária. “As redes sociais trouxeram a possibilidade de divulgação e distribuição de livros de maneira mais acelerada e acessível. Inclusive, já estão surgindo tipologias para influenciadores como booktokers e bookstagrammers. Formou-se um nicho de influência literária”, explica.
A professora Ione Araújo dos Santos, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), vê nas comunidades literárias digitais uma ponte entre o usuário e a experiência de leitura. “Essas comunidades literárias têm desempenhado um papel importante na formação leitora, principalmente dos jovens, porque aproximam a leitura da vida cotidiana em um espaço onde eles já estão inseridos, como o TikTok e o YouTube. Isso acaba retirando aquela obrigatoriedade imposta pela escola, deixando o ambiente mais propício às trocas e aos gostos”, afirma.
Nesse contexto, os influenciadores literários assumem um papel central. São eles que mediam o contato entre o público e os livros, transformando resenhas e recomendações em vídeos curtos que podem alcançar milhares de pessoas. Por trás desse movimento, há um trabalho constante de criação, gravação e divulgação.
As redes sociais transformaram a leitura em uma prática mais “visível” e deram a ela um novo sentido de comunidade. Isso porque, antes de se tornar uma experiência silenciosa e individual, ler era um ato partilhado. Quando a alfabetização ainda era privilégio de poucos, as histórias circulavam pela voz de quem sabia ler, mediando o acesso dos outros à palavra escrita. Segundo o historiador João Ngola Trindade, em seu artigo Tradição, História e Literatura, “a oralidade está presente no processo de educação e ensino em todas as sociedades, sendo cada vez mais usada atualmente com as tecnologias de comunicação que associam a imagem e a voz”.